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CLXV
Textos sobre Filosofia
Desertos da Alma, Noites do Espírito

Muito já ouvimos falar do que ocorre dentro de nós mesmos, destes terríveis processos que conduzem até nossa liberação, nossa ascensão final, rumo ao Espírito.
Nosso interior é a soma de muitas coisas, de muitos elementos que no fundo compartilham uma mesma natureza íntima.

Quando falamos de Alma, quando falamos de Ser, certamente todos imaginam algo como um indivíduo, uma unidade, uma forma, uma força, e claro que de certo ângulo certamente é isto, mas é também a soma de muitas forças, algo que se manifesta de maneira múltipla, e resulta da junção de diferentes frações internas.

A Alma tem distintas frações, assim como o Ser igualmente tem diferentes partes. Olhando do ponto de vista interno, é como se cada uma destas forças fosse uma pessoa, com uma qualidade distinta, uma habilidade única e especial, o qual somado aos demais, forma uma unidade múltipla (pois é um, mas formado de muitos).

Esta noite estava nos mundos internos, dentro de mim mesmo, em meu próprio universo interior, vendo certas frações da Alma, dispersas e sem propósito, frações de minha própria Alma, aprisionadas por diferentes incompreensões e delitos menores. Via estas frações sem brilho, sem propósito e descontente com a situação, me senti leve, puro, e por aqueles momentos foi como se me transformasse em uma energia, um princípio universal naquela região interior.
Me sentia como se fosse uma eletricidade que se espalhava por toda parte, o próprio espírito que a todos unifica, e compenetra. Me senti dentro de cada uma daquelas frações de mim mesmo, eu era todos, e eles eram um. Pude ao mesmo tempo, fazer todos brilharem em sua natureza, revelarem sua verdade e se integrarem comigo.
Todos obedeceram ao profundo anelo que lhes compenetrava por meio de minha vontade, e naqueles momentos entendi como age o Cristo em nós, que como força nos anima e nos alenta, também nos impulsiona as coisas Divinas e Espirituais.

Isto é algo que muitas pessoas sentem, digo estes profundos anseios de realização divina, esta força universal Crística que se manifesta nos organismos devidamente preparados, ainda que por vezes imperfeitos.


Em fim, algo que temos de explicar é que existem diversos momentos em nosso caminho aonde passamos por terríveis processos de solidão, solidão esta que pode estar relacionada com a Alma, solidão que pode estar relacionada com o Espírito.

Os Desertos da Alma, as Noites do Espírito, são processos de travessia, de transformação, aonde a fração mais íntima de nós mesmos se eleva até regiões superiores, as quais o restante da Alma, as quais o próprio Espírito restante não é capaz de adentrar, de acompanhar. Isto gera aqueles terríveis processos de um sentimento de abandono, uma tristeza e um vazio que não é possível preencher por nada deste ou de nenhum mundo, senão por isto que elevou-se e que se aguarda retornar.

O Deserto Esotérico, e a Noite Esotéricas, são dois aspectos de uma mesma coisa, uma jornada terrível de transformação Íntima, aonde esta força interior que tudo sustenta, que tudo penetra e compenetra, retira-se, eleva-se, e como é a força forte de toda força, como é a ligação maior que temos, com tudo que é divino e com tudo que é humano, fica um profundo vazio, por algo que deveria estar lá, e não está.

É Como se no mar, tirassem do capitão do navio os ventos, a bússola, as estrelas, e este se visse sem meios para seguir a diante, sem uma forma sequer de saber aonde está, para onde tem de ir, etc.


É Inegável que quando este princípio retorna, é o fim do Deserto para esta Alma, é o final da Noite do Espírito. E é verdade que o que advém depois disto é algo completamente novo, pois nos preenchemos de algo ainda mais elevado, mais divino, mais esplendoroso e inimaginável.

Há muitas crises e dificuldades nesta transformação disto que somos, até aquilo que estamos destinados a Ser. Os processos mais difíceis são exatamente estes denominados Desertos ou Noites Esotéricas.
A Diferença maior do Deserto para a Noite é o tempo, a profundidade, a intensidade.
Imaginar que nossa Alma sofra de Luz, de Poder, é algo terrível, mas supor que o Espírito consiga sustentar-se sem sua Luz, sem seu Poder, é algo estarrecedor.
A Alma Estremece sem sua energia mais íntima e o Espírito padece em profunda dor e angústia pela falta do que lhe é devido.

Ao mesmo tempo somos esta fração que penetra nisto que é mais divino e que anseia pela luz e pelo poder liberador, e somos aquela fração que fica em trevas, sem aquela parte mais divina que elevou-se em busca do que é sua mais profunda angústia. Assim que ao mesmo tempo vivemos a dualidade de ter de transformar a este poder em algo novo, superior, divino, e sofrer as consequências de ficar sem isto.

Esta é uma dupla jornada a qual para muitos é impossível, seja porque esta terrível transformação lhes é muito difícil, seja porque o sofrimento é demasiado para estas pobres pessoas.
É muito normal a pessoa entrar nestes processos de Desertos Esotéricos e de Noites Esotéricas e nunca sair, nunca chegar a meta...

Muitos não entendem que estes cíclicos períodos são necessários e indispensáveis para nossa jornada, não só desgostam destes momentos, como não realizam o que lhes correspondem, nestes processos.

Existe pelo menos um Grande Deserto da Alma, e uma Longa Noite Espiritual o qual temos de passar em nossa jornada, ainda assim há processos mais ou menos terríveis de igual natureza a sentido.


Algo que temos de entender, é que assim como isto ocorre dentro de nós mesmos, na profundidade daquilo que somos, isto também ocorre no mundo, cada vez que estas forças divinas que tudo sustentam, elevam-se, e nos sentimos abandonados, sem luz, sem um sustento espiritual...
Mas é por este processo que estas forças transformam-se no que precisam transformar-se, e nós desenvolvemos o que precisamos desenvolver.

Um exemplo disto tudo que falamos, são aqueles momentos aonde o Profano faz-se Iniciado, ou que o Iniciado faz-se Adepto.
Tudo o que é o indivíduo deixa de ser, porque abre-se diante dele uma nova realidade, algo incompreensível, algo distinto e diferente de tudo que conhecera, de tudo que entendera até então.
Nisto gera-se um processo terrível entre o que ele é, e o que tem de ser, entre o que sabe, e o que tem de saber, entre o que vive, e o que tem por viver.
É esta jornada entre uma coisa e outra, entre um mundo e outro, entre uma realidade e outra, que gera estes processos aonde uma fração de nós mesmos se retira e se eleva, e o restante fica em trevas, até que isto esteja concluído, resolvido.

Algumas pessoas já ouviram falar de Iniciações Coletivas, aonde um Ser passa por um processo, e um povo recebe uma iniciação. é o mesmo que estamos falando, só que neste caso fora do indivíduo.

Esta elevação deste Ser, esta transformação deste Ser, e por fim a reintegração e elevação do restante é o mesmo que ocorre dentro de nós mesmos.

"O que tenha Fé num Profeta receberá a recompensa de um Profeta e o que tenha Fé num Homem Justo, receberá a recompensa de um Homem Justo" - Pistis Sophia

25/09/17