CLXV
Textos sobre Metafísica
Impulsos da Mônada Divina

As Almas encarnadas como Pessoas que hoje vemos sobre a face da terra, nem sempre foram pessoas, já viveram em diferentes reinos como mineral, vegetal e animal, antes de estabelecerem-se no reino Animal Intelectual (ou humano como de forma equivocada mas popularmente dizemos).
Esta evolução, esta progressão através destes reinos é uma preparação e um desenvolvimento natural desta Alma para o estado "Humano".
A Evolução não falha, pois a Alma no decorrer destes reinos não tem livre arbítrio nem discernimento, segue a orientação e a guiatura de seus respectivos Devas, ou Mestres, podemos dizer.
No reino humano recebemos o livre arbítrio e deste ponto exatamente por conta desta liberdade, tendemos sempre esotéricamente ao centro de gravidade, que em outras palavras é o principio involutivo atraíndo aquela Alma mais uma vez a seu estado original, descendendo os reinos Animal, Vegetal, Mineral mais uma vez, e se estabelecendo como princípio básico, no centro de gravidade planetário.

No reino humano temos sempre estas 108 existências que são o lapso de tempo entre o período evolutivo e o período involutivo. É quando temos a chance de Revolucionarmos e escaparmos destas leis mecânicas da natureza; se fracassarmos tentando ou aceitarmos a queda, rodamos ao abismo e a segunda morte por meio da involução.

A Roda que representa as evoluções e involuções é sempre representada pelo Arcano 10, e a força gravitacional que tanto sustenta a vida como provoca a queda, pelo 8, é o eixo da roda. é o magnetismo que gera a repulsão e a atração ao mesmo tempo. Impulsiona os menos evoluídos, faz cair aos mais evoluídos.

No reino humano precisamos fazer uso de duas forças, para escaparmos das leis mecânicas da natureza, uma é o Amor, que comumente é representado pelo Arcano 6 do Tarot, e o outro é o Arcano 9, que representa a força sexual.
O Amor como virtude mas sem o poder sexual é algo estéril, também o fogo sexual sem a guiatura do amor, é uma força cega e tenebrosa.


Todo este processo evolutivo, desde o mineral, indo até o vegetal, passando pelo animal, e ascendendo ao Reino Humano, bem como após as 108 existências, involuíndo pelos reinos Animal, Vegetal e Mineral, se repete 3.000 vezes.
A Mônada Divina, o Princípio Divino, é quem sai do Absoluto(Deus imanifestado) e emana sua essência, seus valores divinos, para que passe por estes processos evolutivos e involutivos.

A Mônada só é emanada uma vez do Absoluto, e a essência, ou a Alma como chamamos, é projetada deste esta mônada e passa por três mil vezes por toda esta experiência evolutiva, humana e involutiva. Caso não se auto-realize, caso não tenha revolucionado, regressa até o seio do Absoluto imanifestado e lá permanece com infinita felicidade mas sem Maestria.

A Involução é sempre um processo demorado e doloroso, mas também necessário, já que a maldade que se forma no reino humano não poderia ser eterna.


Esta progressão nos reinos se dá por ondas, já faz muito tempo (décadas) que não vemos uma Alma Animal incorporando-se em um organismo humano, exatamente porque se corromperia já muito precocemente por esta humanidade já em seu processo final no reino humano. Alguns poucos escaparão da roda fatal, e a grande maioria segue, como é sempre de costume, pela descendente.

A Chave do triunfo está na Mônada. Ela é a força por detras da força, o impulso por detrás do impulso. Quando uma Mônada, quando este Ser Divino tem o impulso por realizar-se, ela envia esta corrente elétrica misteriosa à sua essência e esta sempre permanece cheia de inquietudes e de uma busca mortal pela verdade, pelas Divinas realizações.

Pouco podemos fazer por uma pessoa, se esta não tem este impulso divino de sua mônada, ou se ela não está disposta a escutar os impulsos da mônada.
A Grande Obra é um trabalho que faz esta mônada, algo interno, íntimo, que ocorre de dentro para fora, seguindo impulsos espirituais que recebe esta essência, desde seu Ser Divino.
No Mundo não é difícil reconhecer as pessoas cujas essências são impulsionadas por suas mônadas, são pessoas com gigantescas inquietudes e buscas espirituais. Esta busca pela verdade, esta inquietação divina, não existe em quem não tenha esta essência recebendo os impulsos de sua Mônada Divina.


A Vida, seja em seus processos evolutivos, a luta humana pela revolução, e pela auto-realização, também os processos involutivos dos fracassados e dos que não tem o impulso divino, é muito dura. Mas todos encontram a paz e a felicidade de uma forma ou de outra. Reforçamos que passados estes três mil ciclos na Roda da Vida, fica excluída tal mônada do sofrimento do mundo e esta submerge de vez e para sempre no principio incriado de Deus e lá permanece sem a sabedoria dos Deuses, mas feliz, em paz.


Cada passagem por esta roda, cada novo ciclo evolutivo, podemos dizer é espiral, pois há um aprendizado a nível de mônada e de essência que apesar desta passagem pelo reino mineral e de tanta destruição que lá ocorre, não é jamais perdido. Então claro que mesmo que fracasse uma mônada em um ciclo de 108 vidas, outro ciclo esta terá, se não chegou aos 3.000, para seguir este trabalho.

Lógicamente que o ensinamento gnóstico é revolucionário e não nos agrada este trabalho em espiral, anelamos o caminho reto e as realizações imediatas e profundas, radicais. Se temos o devido impulso e esta guiatura interior, certamente isto é o que faremos.

Tudo que necessitamos está dentro de nós mesmos, porque é a mônada, este Ser individual, este Deus Íntimo quem nos guia e nos leva pelo sendeiro de suas próprias realizações.

Claro que há momentos e momentos, e diferentes níveis de trabalhos que temos de realizar, sempre dentro dos impulsos divinos que recebemos. Nem sempre compreendidos, nem sempre aceitos, mas a nós tem de bastar a percepção de que é ELE quem nos guia.

Mais cedo, em outro texto, replicamos um trecho da obra "Assim falava Zaratustra", de Nietzsche, e agora gostaríamos de como ilustração, mostrar a vida de mais um homem que no passado teve estas inquietudes e realizou as obras de seu Íntimo.

Alguns trechos que encontramos e consideramos interessantes, sobre a lenda da vida de Zoroastro (Zaratustra):

"Um dia, no sexto dia da primavera, um menino nasceu naquela família. A sua mãe e seu pai decidiram dar-lhe o nome de Zaratustra. Ao nascer, Zaratustra não chorou, pelo contrário, riu sonoramente. As parteiras, vendo aquilo, admiraram-se, pois nunca tinham visto um bebê rir ao nascer.
Na vila havia um sacerdote que percebeu que aquele menino viria a ser um revolucionário do pensamento humano e o que enfraqueceria o poder dos 'donos' das religiões. Ele então decidiu tomar providências e procurou Pourushaspa, o pai de Zaratustra, com a seguinte conversa: 'Pourushaspa Spitama, vim avisar-lhe. Seu filho é um mau sinal para a nossa vila porque riu ao nascer, ele tem um demônio. Mate-o ou os deuses destruirão seus cavalos e plantações. Onde já se viu rir ao nascer nesse mundo triste e escuro! Os deuses estão furiosos!'.
Pourushaspa não queria ferir seu filho, mas o sacerdote insistiu e impôs uma prova.
Na manhã seguinte Pourushaspa fez uma grande fogueira, e à frente de todos colocou Zaratustra no meio do fogo, mas ele não sofreu dano algum. O sacerdote ficou confuso.
Zaratustra foi levado então para um vale estreito e colocado no caminho de uma boiada de mil cabeças de gado, para ser pisoteado. O primeiro boi da boiada percebeu o menino e ficou parado sobre ele, protegendo-o, enquanto o resto passava ao lado e o bebê não sofreu um só arranhão. O sacerdote logo arquitetou outro plano. O menino Zaratustra foi colocado na toca de uma loba que, ao invés de devorá-lo, cuidou dele até que Dugdav, sua mãe, viesse buscá-lo. Diante de tantos prodígios o sacerdote ficou envergonhado e mudou-se da vila.
"

"A Boa Mente disse-lhe então: 'Zaratustra, se você quiser pode encontrar em você mesmo todas as respostas que tanto busca, e também questões mais interessantes ainda. Ahura Mazda, Deus que tudo cria e sustenta, assim escolheu partilhar a sua divindade com os seres que cria. Agora, sabendo disso, você pode anunciar essa mensagem libertadora a todas as pessoas.'
Zaratustra contestou: 'Por que eu? Não sou poderoso e nem tenho recursos!". Os outros seres responderam em coro: 'Você tem tudo o que precisa, o que todos igualmente têm: Bons pensamentos, boas palavras e boas ações'.
Zaratustra voltou para casa e contou a todos o que lhe acontecera. A sua família aceitou o que ele havia descoberto, mas os sacerdotes o rejeitaram. Eles argumentaram: 'Se é assim nada há de especial em nosso serviço, nada valem nossos sacrifícios e perderemos o poder que nos dão os deuses ciumentos e caprichos que servimos. Estamos sem trabalho e passaremos fome!'. Decidiram, então, dar cabo da vida de Zaratustra.
Com sua boa mente ele entendeu que tinha que sair dali por uns tempos
".

"Dos 20 aos 30 anos, segundo narrativas que chegaram a nós, Zaratustra viveu quase sempre isolado, habitando no alto de uma montanha, em cavernas sagradas... Em outros relatos, teria ido ao deserto, onde fora tentado por uma entidade maligna. Após sete anos de solidão completa, regressou ao seu povo, e com a idade de trinta anos recebeu a revelação divina por meio de sete visões ou ideias.
Assim começou Zaratustra a sua missão aos trinta anos (a mesma idade em que o Zaratustra de Nietzsche iniciou a dele). Segundo os Masdeístas ele encontrou muita dificuldade para converter as pessoas à sua nova religião. Em dez anos de pregação teve somente um crente: o seu primo. Durante este período, o chamado de Zaratustra foi como uma voz no deserto. Ninguém o escutava. Ninguém o entendia.
Foi perseguido e hostilizado pelos sacerdotes e por toda a sorte de inimigos ao longo de dez anos. Os príncipes recusaram dar-lhe apoio e proteção e encarceraram-no porque a sua nova mensagem ameaçava a tradição e causava confusão nas mentes de seus súbditos. Com 40 anos, realizou milagres e preocupava-se com a instrução do povo. Converteu o rei Vishtaspa, que se tornou um fervoroso seguidor da religião por ele pregada, iniciando a verdadeira difusão dos ensinamentos de Zaratustra e de uma grande reforma religiosa
".


Até aqui alguns fatos e mitos de uma existência de Zoroastro.
E me parece indispensável replicar aqui a vida de outro Mestre, cuja história também parece se repetir através das eras, por meio das vidas, destes que tem este mesmo impulso revolucionário, divino. A Vida do Mestre Eliphas Levi Zahed:

"Foi assim que aos dez anos de idade ingressou na comunidade do presbitério da Igreja de Saint-Louis em L´lle, onde aprendeu o catecismo sob a direção do abade Hubault selecionava os garotos mais inteligentes, que demonstravam alguma inclinação para a carreira eclesiástica. Desse modo, Eliphas foi encaminhado por ele ao seminário de Saint-Nicolas du Chardonnet, para concluir seus estudos preparatórios(1). A vida familiar cessou para ele a partir desse momento. No seminário, teve a oportunidade de aprofundar-se nos estudos lingüisticos e aos dezoito anos já era capaz de ler a bíblia em seu texto original."

"Eliphas Levi foi ordenado diácono em 19 de dezembro de 1835; em maio de 1836 teria sido ordenado sacerdote se não tivesse confessado a seu superior o amor que devotava à jovem. Suas convicções religiosas receberam um choque tão grande, que Eliphas sentiu-se jogado fora da carreira eclesiástica."


"Após 15 anos de estudos, Eliphas deixou o grande seminário para ingressar no mundo, tinha então vinte e seis anos de idade. Sua mãe, ao saber disso, suicidou-se. Abalado, sem experiência do mundo, teve muitas dificuldades para encontrar um emprego. Essa dificuldade aumentava ainda mais pelo boato que correu, segundo o qual teria sido expulso do seminário. Após ter percorrido o interior da França, trabalhando em um circo, Eliphas encontrou em Paris alguns trabalhos como pintor e jornalista. Fundou, com seu amigo Henri-Alphonse Esquirros(3), uma revista denominada "As Belas Mulheres de Paris", na qual aplicava-se como desenhista e pintor e Esquirros como redator.
Mas, apesar desse pequeno parêntese em sua vida, Eliphas não tinha perdido sua inclinação para a vida religiosa. Despedindo-se de Esquirros, partiu em 1839 para o convento de Solesmes, dirigido por um abade rebelde. Eliphas aí encontrou uma biblioteca com mais de 20.000 volumes, iniciando-se na leitura dos antigos Padres da Igreja, dos Gnósticos e de alguns livros ocultistas, principalmente os da Senhora Guyon
"


"Eliphas vislumbrou, através do Spiridion e de outros escritos dessa autora, o reino futuro do Espírito Santo, o trabalho do homem de amanhã. O Cântico dos Cânticos lhe foi revelado; compreendeu por que em teologia a esposa tinha preferência em relação a mãe. Ficou imensamente feliz ao compreender que todos os homens poderiam ser salvos."


"Eliphas Levi passou, então, de emprego em emprego, sempre perseguido pelo clero que via nele um apóstata. Foi então que escreveu sua Bíblia da liberdade, desejando dividir com seus irmãos as alegrias de suas descobertas (1841). Essa publicação custou-lhe oito meses de prisão e 300 francos de multa! Foi acusado de profanar o santuário da religião, de atentar contra as bases da sociedade, de propagar o ódio e a insubordinação."

"Em 13 de julho de 1846 casou-se com Marie Noémi Cadiot, matrimônio que durou sete anos. Esse casamento foi para ele um suplício."

"Em 1854, um ano após a morte de Wronski, Eliphas viajou à Londres, onde se encontrou com inúmeros ocultistas ingleses, que lhe pediram revelações e prodígios. Longe de querer iniciá-los na magia cerimonial, isolou-se no estudo da Alta Cabala.
Havia um, contudo, Adepto de primeira linha, que se tornou grande amigo de Eliphas Levi: Bulwer Lytton, autor de Zanoni, Os Últimos Dias de Pompéia, A Raça Futura, etc. Os dois Mestres teriam trocado informações iniciáticas dos mais altos interesses para as sociedades ocultistas, das quais certamente eram os chefes.
Em agosto de 1862 editou seu livro Fábulas e Símbolos, considerado por ele mesmo como o mais profundo que escreveu. Ao elaborar essa obra, conta-nos Eliphas, o Espírito projetou-se em sua alma, de sorte que via todo o conteúdo do livro na Luz, antes de ser escrito. Toda a obra foi feita de um só fôlego, sem qualquer rasura. As idéias brotavam espontaneamente e coisas simples e belas emergiam da Luz, admirando o próprio autor. 'Que a Vontade de Deus seja feita! Exclamou Eliphas. Estou maravilhado e espantado pelas grandes obras que Ele me faz executar. Se soubésseis como meu mérito é pequeno... Sou um verdadeiro cadáver que o Espírito Santo anima'
".

"'Um dia, diz Eliphas, entre três e quatro horas da tarde, ouvi alguém bater a minha porta. Eram sete batidas secas, assim espaçadas: 00-0-00-00. Abri a porta e um rapaz muito bem vestido e de boa apresentação entrou lentamente, rindo, com um ar um pouco sarcástico, dizendo-me em um tom familiar: "meu caro Senhor Constant, estou encantado por encontrá-lo em casa". Tendo dito isso, passou para meu escritório como se estivesse em sua própria casa e sentou-se em minha poltrona.
Mas Senhor, disse-lhe, não vos conheço"! Ele soltou uma gargalhada: 'Sei perfeitamente disso: é a primeira vez que me vedes, pelo menos sob esta forma. Mas eu vos conheço muito bem! Conheço toda vossa vida passada, presente e futura. Ela está regulada pela lei inexorável dos números. Sois o homem do Pentagrama e os anos terminados pelo número cinco sempre vos foram fatais. Olhai para traz e julgai: em 1815 vossa vida moral começou, pois vossas recordações não vão além, em 1825 ingressastes no seminário e entrastes na liberdade de consciência; em 1845 publicastes A Mãe de Deus, vosso primeiro ensaio de síntese religiosa, e rompestes com o clero; em 1855 vós vos tornastes livre, abandonado que fostes por uma mulher que vos absorvia e vos submetia ao binário. Notais que se houvésseis continuado juntos, ela vos teria anulado completamente ou teríeis perdido a razão. Partistes em seguida para a Inglaterra; ora, o que é a Inglaterra? Ela é o Iod da Europa atual; fostes temperar-vos no princípio viril e ativo. Lá vistes Apolônio, triste, barbeado e atormentado como estáveis naquele período. Mas esse Apolônio, que vistes era vós mesmo; ele saiu de vós, entrou em vós e em vós permanece'.
Vós o revereis neste ano de 1865, mais bonito, radioso e triunfante. O fim natural de vossa vida está marcado (salvo acidente) para o ano de 1875; mas se não morrerdes neste ano, vivereis até 1885. Apolônio, quando o vistes, temia as pontas das espadas; vós as temeis como ele, pois neste momento, me tomais por um louco. Como um dia alguém quis assassinar-vos, perguntais inquietamente se não vou terminar minha extravagante alocução com um gesto semelhante (aqui começou a rir). Sim, sou louco, acrescentou, retomando seu ar sério, mas não sou a loucura morta, sou a loucura viva; ora, a loucura viva é o inverso da sabedoria de Deus. Sabeis vós o que é Deus? Deus sois vós, pois Satã é Deus visto ao contrário.
Existem atualmente dois grandes escritores, continuou o estranho visitante, que são úteis à Ciência, Mirville e Eliphas Levi. A todo tempo são necessárias duas colunas; vós sois Jakin, ele é Boaz. Sabeis bem que nenhuma força se produz sem resistência, nenhuma luz sem sombra, nenhuma afirmação sem negação". Calou-se por alguns instantes e eu lhe perguntei:
- Sois Espírita? Respondeu-me gravemente:
'Os espíritas são escorpiões que inoculam um veneno cadavérico sob as pedras tumulares. Atraem os mortos, mas não os ressuscitam. Em breve a terra estará coberta de cadáveres que andam. Estamos em uma época de morte. Louis-Philippe era um Mercúrio sem asas na fronte; ele as tinha nos pés e foi-se. Napoleão III é um Júpiter sem estrela; após ele virá o Saturno coxo e o rei dos padres. O Senhor Conde de Chambord... "O visitante refletiu um instante, olhou-me fixamente e disse de repente:
"Por que não quereis ser papa"? Dessa vez fui eu quem soltou uma gargalhada. Respondi-lhe:
- Porque não quero ser despropositado. "Ah! disse-me ele, ainda tendes um véu para rasgar e não conheceis vossa força toda-poderosa, acrescentou, retratando-se. Nós dois já criamos e destruímos muitos mundos e vós não ousais aspirar a governar um. Esperai, então, a derrota, o esmagamento dos tímidos, a cruz desse pobre homem que se chamava Jesus Cristo'.
'Mas, finalmente, quem sois vós?', perguntei-lhe, então, levantando-me.
'Vós negastes minha existência, respondeu-me ele; chamo-me Deus. Os imbecis denominam-me Satã. Para o vulgo chamo-me Juliano Capella. Meu envelope humano tem vinte e um anos; ele nasceu em Bordéus; tem pais italianos'.
'Enquanto esse rapaz falava, eu sentia um peso extraordinário na cabeça; parecia-me que minha testa iria explodir. Observava meu interlocutor com surpresa. Seu rosto lembrava os retratos de Lord Byron, com menos correções nos traços; possuía as mãos muito brancas e carregadas de anéis, o olhar seguro e crepitante de sarcasmos, a boca vermelha, os dentes regulares".
O curioso visitante partiu e jamais os biógrafos de Eliphas Levi encontraram qualquer traço dele. O ano de 1865, como ele tinha predito, foi triunfal para Eliphas, pois a publicação de sua Ciência dos Espíritos trouxe-lhe enorme reputação entre os ocultistas de seu tempo.
"

 

 

26/03/14