CLXV
Textos sobre Metafísica
Entre a Cruz e a Espada

"E o diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo.
E disse-lhe o diabo: Dar-te-ei a ti todo este poder e a sua glória; porque a mim me foi entregue, e dou-o a quem quero.
Portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
"
Lucas 4:5-7

Dentre tantas coisas que aprendemos na vida, é que a vida se alimenta da vida. Para algo existir, necessita-se que algo seja sacrificado para que o outro viva. Constantemente necessitamos de alimento, e isto mata os vegetais, os animais, porque deixam de ser o que são, para que venham a ser parte de nós, como força da vida que serve de sustentação ao nosso organismo, para que persista a vida se manifestando em nosso veículo físico.

Como já tanto dissemos e nos ensinam os Mestres, para que a Planta possa nascer, para que ela venha a existir como planta, a semente necessita deixar de ser o que é, ela precisa morrer como semente, sacrificar-se para que dalí possa brotar a mesma vida sob um aspecto superior, como Planta.

No homem ocorre o mesmo, quando no Reino Humano, temos este chamado para transformar-nos em algo novo, e este é o sentido da vida, esta luta por transformar o homem em algo que tem potencial para ser, ainda que lhe custe muito esforço e sacrifício.

A cada trabalho realizado, a cada etapa vencida do caminho, inevitavelmente recebemos com isto mérito, honra, poderes, dons... no entanto como já dissemos em outras oportunidades, sacrificamos estes méritos, esta honra, estes poderes, até mesmo estes dons, em virtude de méritos maiores, honras maiores, poderes maiores, dons maiores... não por uma ambição mas por reconhecer que é o caminho que nos leva a Divindade.

Com Aquário termina a era da Razão e nasce a era da Intuição, também finaliza-se a era do captalismo, do dinheiro, e nasce a era da Cooperação, do Cristo-Centrismo.
E tudo isto são sacrifícios muito grandes que temos cada um de nós de realizar, afinal temos em nossa mão uma Espada, uma poderosa arma, eficiente, afiada... e temos de abrir mão disto, tomar nossa Cruz e seguir o caminho que a Divindade nos tem traçado.

Para a humanidade pode ser muito cômodo o uso da Razão, pode ser muito bom contar com um sistema captalista para gerenciamento de recursos, mas conforme o Homem vai avançando em direção a Divindade, naturalmente estes sistemas, tornam-se ultrapassados, equivocados para o momento que nos cabe viver.

Na Iniciação o Homem sempre adquire honra, méritos, grandes méritos por haver vencido certas barreiras e passado certas provações os quais poucas pessoas ao longo da humanidade passaram. Constantemente o Iniciado precisa abrir mão daquilo que tem, daquilo que é, em virtude daquilo que tem de vir a Ser, e simbolicamente podemos chamar isto de transformar a Espada em Cruz.

A Espada é um símbolo de poder, de conquista, de vitória, de vontade... Já a Cruz é um símbolo do Sacrifício, da dor, do martírio, do esforço e também de um novo nascimento, uma nova possibilidade.
É interessante tudo isto porque a Espada é um símbolo fálico (positivo, masculino) e a Cruz é a mescla da força Masculina e Feminina, do positivo e do negativo.

Sempre que vamos ao Sexo, abrimos mão da Espada, porque quando se introduz o membro masculino dentro do canal feminino, o que advém daí já não é o mesmo que havia antes. Assim que, quando do final de um processo iniciático, a culminação de um processo, temos "pronta" uma Espada, que em síntese representa a vitória do grau obtido, o mérito e o domínio da natureza.

Quando vamos a Fornalha de Vulcano, quando vamos ao Sexo, submetemos este material a força que é capaz de recriar este principio em uma esfera mais elevada, mas também destruí-lo, o reduzimos mais uma vez a "possibilidade" e não ao feito.

Isto vale também para a Moral, para este Mérito que foi obtido... quando um processo chega a seu ápice, podemos nos sustentar nesta região, ou abrir mão daquele mérito, transformando a simbólica espada em uma Cruz, e seguir o caminho, viver em outros níveis o processo que nos cabe viver.


Muitas vezes os Mestres falam do Nirvana, que podemos conquistar a felicidade de poder habitar na região do Nirvana, também nos alertam da realidade que entrar no nirvana requer o mais completo esquecimento e abandono da Humanidade... e que podemos, se assim sentimos que o Íntimo nos impulsiona, abrir mão deste Êxito, desta vitória que é permanecer nesta região de luz, de verdade, de bem aventurança e sacrificar tudo isto em favor da humanidade.

E isto tudo, cada um destes processos, é o que nos referimos de estar entre a Cruz e a Espada.
A Espada representa o que foi estabelecido, o que está fixo, o que foi formado. Em algumas épocas remotas, a espada representava O Governo, ou seja, aquilo que está fixo, o que se tem encarnado.
A Cruz representa a possibilidade do que podemos vir a ser, o volátil, o que pode vir a ser criado. A Cruz é um símbolo religioso universal, claro representa a Igreja, a Religiosidade, a Espiritualidade, em outras palavras, aquilo que é variavel, o que ainda não temos, mas podemos vir a ter, vir a Ser.


É muito interessante esta questão simbólica da Cruz e da Espada, porque vemos que o ensinamento do Cristo é que esta força constantemente sacrifica sua Espada pela Cruz do Sacrifício. Uma força, um poder capaz de imperar soberano sobre tudo e todos, sendo o maior, mostra-se como o menor, sendo Rei, manifesta-se como um serviçal de todos, dando a todos sua luz, sua sabedoria, seu exemplo, seu serviço...

E isto nos leva àquele trecho bíblico que iniciamos este texto, aonde o Cristo Jesus é tentado pelo Diabo e este lhe oferece o poder e a glória sobre todos os reinos do mundo.
É óbvio que o Diabo como Diabo não é o mal como imaginamos, e realmente é dele a força que o Cristo tem encarnado. Pois ao vencer a tentação surge a virtude, e é somente pela tentação que surge a virtude. É trabalho do Diabo formar o Cristo, aperfeiçoá-lo. E se o iniciado segue este principio dentro de si mesmo, se o amplia e o funde consigo mesmo, passa por este processo de Morte e de Ressurreição, constantemente ao logo de seu processo, ainda que claro isto da Morte e da Ressurreição física sejam um processo específico da Iniciação que não é o que nos referimos neste momento, mas sim esta Morte e abdicação do que somos, do que temos, em benefício daquilo que necessitamos vir a ter, vir a Ser.


Vemos em algumas representações bíblicas que Judas, quando vê o Cristo sendo crucificado, arrepende-se de ter traido ao Cristo, e afirma que acreditava que o Cristo "tomaria a Espada" e lideraria uma revolução, já que tinha o poder, sabedoria e apoio para isto... e que não entendia porque ele deixava Crucificar-se.


09/02/15